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sábado, 23 de setembro de 2017

CENTENÁRIO DA IGREJA DE SÃO PAULO - PRIMEIRA ERMIDA DE SÃO PAULO

Nunca foi aceita de livre vontade pelos ao tempo vigários de Ponta Garça, ou de Nossa Senhora da Piedade daquela localidade, a criação de uma Ribeira Quente feita povoado independente, porque os mesmos sempre consideraram que esta localidade era, religiosamente falando, a continuação de Ponta Garça, embora a distância que separava as duas localidades fosse muita, e a falta de caminhos de penetração além do mar, fossem quase inexistentes.

Por via desse anacronismo histórico, daquela insistente teimosia, o começo da comunidade sedentária da Ribeira Quente, no aspecto sócio-religioso, foi bastante conturbado. No entanto, depois de ter sido feita a primeira ermida de "Sam Paulo" - por gente de Vila Franca - embora inicialmente ermida particular sem contestação, quando a mesma passou a servir a pequena comunidade de fixação permanente, teve este templo de se tornar sufragâneo da Igreja de Ponta Garça, porque, segundo a lógica, esta era então a paroquial mais perto da referida ermida.

Na sua situação de subjacência religiosa, a Ermida de São Paulo foi por vezes omitida dentro do seu período histórico, não só devido ao ressentimento já focado, que se tornou durável, como também devido ao menosprezo a que este templo foi votado por parte da ouvidoria e centralismo religioso de Vila Franca.

Por exemplo: Frei Agostinho de Monte Alverne, autor das "Crónicas da Província de São João Evangelista das Ilhas dos Açores", nascido a 11 de Fevereiro de 1629, muito meticuloso no pormenor narrativo, quando abordou todas as paróquias da jurisdição da Igreja de São Miguel de Vila Franca e suas ermidas, ao falar das que se situavam a nascente, diz apenas:

"4º - A freguesia de Nossa Senhora da Piedade, de Ponta Garça, tem vigário, cura e tesoureiro, com 130 fogos e 435 pessoas, com duas ermidas, São João de Deus e Nossa Senhora da Vida", porque nos elementos que lhe foram dados não figurava ou havia sido mencionado o templo de São Paulo da Ribeira Quente.

Esta omissão tornou-se muito evidente, visto que, quando faleceu Frei Agostinho, em 1726, já este primeiro templo do lugar da Ribeira Quente tinha 61 anos de idade!

Francisco Afonso de Chaves e Melo no seu livro "A Margarita Animada", publicou em 1723 - três anos antes da morte de Frei Agostinho - falando dos templos da Ilha de São Miguel diz-nos que a paroquial de Ponta Garça tem (tinha), duas ermidas, a das Almas Santas e a de São Paulo!

"Visitei as Ermidas pertencentes a esta paroquial (de Ponta Garça) e na de Sam Paulo da Ribeira Quente, porque tem Cura que administra os Divinos Sacramentos aos moradores daquele sítio, necessita de um Relicário para nele se levar o Santíssimo Viático aos enfermos, por não ir, como o tem feito, em um cálice de grave indecência, principalmente por se ir administrar por atalhos e passos dificultoso, e de haver de passar algumas vezes uma perene e caudalosa ribeira, que é preciso ou passar a cavalo ou aos ombros, por cima de uns paus, que se não podem formar com segurança". I feita a expensas de Lopo Anes de Araújo, era e foi uma igreja pequena e acanhada que passou por muitas situações de ruína, até que, porque a povoação crescia, por volta de 1830 (data no frontespício), esta foi transformada como hoje se a vê, mas depois caiu novamente num estado de pobreza que só por alturas de 1924 a 1928 se veio a alterar devido à grandiosa força de vontade do seu vigário, o Padre Francisco de Medeiros Simas, do povo de Ponta Garça e dos emigrantes dali naturais, então este templo se valorizou.

Baseando-nos nos dados que nos transmitiu o Dr. Urbano de Mendonça Dias em seu trabalho feito acerca dos templos desta nossa ilha, foram vários os visitadores mandatários dos Bispos dos Açores que visitaram a Igreja de Ponta Garça e, por inerência, as suas ermidas. Porém, nem todas estas visitas foram realmente concretizadas in loc, isto no tocante à Ermida da Ribeira Quente, como se pode verificar.

Vinte e seis anos depois de ter sido ereto este primitivo templo da Ribeira Quente, a 15 de Janeiro de 1691, numa altura em que governava a Diocese dos Açores D. Frei Clemente Vieira, o Visitador Licenciado António Pais de Vasconcelos fala deste templo nos seguintes termos:

"A Ermida de Sam Paulo, sita no lugar da Ribeira Quente a esta sufragânea (à igreja de Ponta Garça), está em tão miserável estado a podermos considerar de mais de 20 anos nesta parte, em que já padecia faltas que nela notou em sua visita o Illmº Snr. Bispo D. Frei Lourenço de Castro, o que nem pela sua visita nem pela que fez nesta igreja o Rev. Visitador Simão da Costa Rezendes, se fez coisa alguma".

Foram muito confusos alguns atos de visitação feitos a esta ermida, não só devido ao seu quase isolamento, como também por falta de documentação comprovativa ou verídica. Se fossem reais e não por simples informação de ouvidoria e paroquial, teríamos de aceitar a ideia de que em 6 anos depois de ter sido ereta esta ermida (1665), já a mesma estava em situação lamentável (como atrás se diz), - o que seria sinónimo de abandono por parte dos seus instituidores - mas isto não foi verdade visto que, como sempre, aos domingos, em alturas adequadas, os veraneantes, proprietários ou não, continuavam a ir ali ouvir missa pelos sacerdotes habituais, também estes veraneantes.

Segundo ainda o livro do Dr. Urbano de Mendonça Dias, provavelmente compilado de dados colhidos na ouvidoria de Vila Franca, o atrás mencionado visitador imbuído de poderes que lhe haviam sido conferidos, determinou que fosse notificado o padroeiro João de Frias Pereira, a fim de o obrigar a cumprir com o preceituado na doação. Porque o mesmo já tinha falecido, foi notificada a viúva do mesmo ou quem por direito era responsável pelo legado.

Dando rol dos bens patrimoniais do templo, o visitador diz:

"Tem esta Ermida 3 alqueires de vinha, sitos e junto dela, de fábrica", que o mesmo mandou pôr à venda mas que, por razões compreensíveis, não foi concretizada, visto que dos 3 alqueires de terra de vinha de património já pouco restava, ou só lhe restava uma nesga de terra, porque o verdadeiro dono daquele espaço, o mar, desde há muito vinha repondo as coisas no seu devido lugar.

O estranho é que nem o vigário de Ponta Garça nem o ouvidor de Vila Franca do Campo, entidade máxima na jurisdição, sabiam da perda daquela terra!

Quarenta anos depois da sua construção e catorze depois do último ato de visitação atrás mencionado, feito pelo licenciado António Pais de Vasconcelos, em 1691, a modestíssima ermida de São Paulo é vistoriada a 16 de Novembro de 1705 pelo Visitador Francisco Berquó, que em nome do Bispo dos Açores (D. António Vieira Leitão), ali se deslocou, tendo este apenas dito, depois deste ato de visitação, que:

" A Ermida de Sam Paulo foi ereta no ano de 1665, e de fábrica lhe doou João de Frias, 1$200 réis, e para pagamento deles obrigou 3 alqueires de vinha".

Descreveu os mesmos dados biográficos do padroeiro, dizendo que este "era casado com D. Maria Soares; veraneava na Ribeira Quente, a fazer o seu vinho e a colher os frutos dos seus terrenos, e naquele ano, ajudado talvez por outros veraneantes, levantou a primeira Ermida de Sam Paulo, nos extremos de um terreno que lá tinha, que media 3 a 4 alqueires, e doou toda a terra à Igreja para património, pondo-lhe o foro de 1$200 réis anuais, ficando a terra na administração da família".

Foi numa dessas alturas de governação eclesiástica conturbada nos Açores que nasceu o primeiro templo religioso no lugar da Ribeira Quente, lugar de veraneio, e foi também num outro período de Sede Vacante que veio a nascer, como se verá, a segunda Igreja no mesmo lugar.

Já iam então decorridos 82 anos desde que a primeira Ermida de São Paulo havia sido ereta, e 42 anos depois do último ato de visitação feito pelo Deão Dr. Francisco Berquó del-Rio - que foi desde 1739 Governador do Bispado na ausência do 20º Bispo dos Açores, D. Frei Valério do Sacramento - quando a 9 de Junho de 1747 outro visitador, o Licenciado Pedro Ferreira de Medeiros abordou as grandes necessidades do templo de São Paulo, e alertou os responsáveis religiosos e civis de Vila Franca, para que os mesmos compreendessem o então já muito notório crescimento da população daquela localidade da Ribeira Quente.

Como se pode observar, o longo período de quarenta e dois anos, desde del-Rio a este último licenciado, é perfeitamente sinónimo de que, religiosamente falando, a comunidade sedentária daquela localidade desde há muito estava esquecida.

Esta desatenção, ou falta de atenção, por parte das autoridades civis e religiosas, era do agrado de alguns proprietários das fajãs que desejavam manter quase só para si aquele lugar de sossego e veraneio, enquanto os vigários de Ponta Garça mantinham sempre a esperança de que o povo da Ribeira Quente devia pertencer à sua paróquia.

Deste visitador pouco ficou dito acerca da ermida de São Paulo, visto que a sua verdadeira missão era de outra dimensão, principalmente a de admoestação ao povo de Vila Franca, ao tempo pouco recetivo aos seus tradicionais bons costumes.

Dois anos depois desta última visitação, a 6 de Setembro de 1749, o Visitador Dr. Caetano Álvares Coelho fala do Curato já criado na Ribeira Quente e lamenta que o Cura, que era ambulante, pelas endoenças exigia que lhe fosse pago como trabalho extraordinário, aquilo que ia fazer à Ribeira Quente (levar a comunhão aos doentes), visto que, ao tempo, a Ermida de São Paulo ainda não possuía relicário!

Até àquela altura nada se sabia acerca de quem era o responsável pelo já relativamente idoso templo daquela localidade, até que, por carta de Visitação de 18 de Dezembro de 1753, o Visitador Licenciado Bernardo Martinz de Medeiros, mandatado pelo então Bispo dos Açores, D. Frei Valério do Sacramento, confirma que a Ermida de São Paulo era Curato, dizendo:

"Visitei as Ermidas pertencentes a esta paroquial (de Ponta Garça) e na de Sam Paulo da Ribeira Quente, porque tem Cura que administra os Divinos Sacramentos aos moradores daquele sítio, necessita de um Relicário para nele se levar o Santíssimo Viático aos enfermos, por não ir, como o tem feito, em um cálice de grave indecência, principalmente por se ir administrar por atalhos e passos dificultuosos, e de haver de passar algumas vezes uma perene e caudalosa ribeira, que é preciso ou passar a cavalo ou aos ombros, por cima de uns paus, que se não podem formar com segurança".

Determinou o mesmo que se fizesse o necessário Relicário - que não foi feito porque essa incumbência foi delegada ao vigário de Ponta Garça sob a orientação da ouvidoria de Vila Franca.

Nessa Carta de Visitação este mandato determina também que fosse pago ao Ermitão (ficou-se a saber que o havia), um subsídio anual de dez tostões, visto que o mesmo além de guardião também servia de sacristão.

Dois anos depois desta última visitação, a 6 de Setembro de 1749, o Visitador Dr. Caetano Álvares Coelho fala do Curato já criado na Ribeira Quente e lamenta que o Cura, que era ambulante, pelas doenças exigia que lhe fosse pago como trabalho extraordinário, aquilo que ia fazer à Ribeira Quente (levar a comunhão aos doentes), visto que, ao tempo, a Ermida de São Paulo ainda não possuía relicário!

Fonte: facebook João Costa Bril

Povoação, sábado, 23 de setembro de 2017.

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