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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

CONTO INFANTIL À ANTIGA: A Aranha e o Defluxo

A subir da Vila para as Freguesias ia Dona Aranha, sempre cheia de artimanha a fazer suas teias nos fetos e pequenos arbustos do Caminho Velho. E, como estava cheia de fome, estava sempre na mira de alguma incauta mosca lhe cair na teia para lhe encher o papo. Estava ela nestas divagações, e ficou muito surpreendida e disse para si própria:

- Se a minha vista não me engana, ali vem a descer o caminho o defluxo. Onde é que irá tão apressado?

Eu bem me parecia que era o Senhor Defluxo a descer o caminho, ainda bem que não preciso ir ao oculista.

- Olá, bom dia, Dona aranha, é verdade. A Senhora não se enganou, não.

- Bom dia, D. Defluxo, onde ide vós? Será que ides p`ra Vila?

- Vou sim, Dona Aranha, estou cansado de ser mal tratado pelas gentes das Freguesias.

- Mas, D. Defluxo, o que é que lhe fizeram para estar assim tão triste e arrepiado?

- Diz bem, D. Aranha. Estou arrepiado porque estas gentes das Freguesias não têm cuidado comigo. Quando estão com gripe, andam sempre ao frio e fico tão arrepiado e assim a tremer como a D. Aranha está a ver. Não têm mesmo cuidado algum comigo! Dizem eles que não há tempo a perder, “é preciso aproveitar o tempo, enquanto não chove temos de semear as favas e as sementeiras primaveris amanhar as terras e tratar dos animais, este defluxo há-de passar”. E zás vão com os dedos ao nariz a assoarem-se a atirarem comigo de qualquer maneira contra o chão, contra as barreiras e contra tudo. Não têm respeito algum por mim, por isso estou sempre arrepiado e triste.

- Mas, D. Defluxo, porque vai o senhor para a Vila? Eu não estou a entender!

- Ora, porque vou… É porque lá sou bem tratado, andam comigo com tanto cuidado como se tivessem ovos nas mãos. Mal sentem um defluxozinho ou um resfriadozinho qualquer agasalham-se muito bem, e vamos para cama. E depois que bom que é o calor, é chazinhos quentinhos e saborosos, e colheres de mel, e xaropes, que é uma delicia. Agora do que eu não gosto é das pastilhas amargas, que compram na farmácia, chamam-lhes comprimidos, uf, que peste! Agora uns docinhos de mentol e outros muito saborosos… gosto tanto, fico todo consolado.

Quando se assoam é em lenços tão delicados e perfumados! Gosto tanto da Vila, gosto tanto!

- Pois eu não gosto nada mesmo.

- Mas porquê, D. Aranha?

- O porquê eu já lhe digo, D. Defluxo. O Senhor sabe que eu não é por me gabar, mas faço trabalhos, um primor, com tanto carinho. Levo horas a fazer as minhas teias com o meu bom gosto. Às vezes paro para admirar o meu bordado… E zás! Cá vem elas de vassoura na mão e estragam num abrir e fechar de olhos a minha linda teia que tanto trabalho me deu a fazer. E depois tenho de fugir ligeira para não morrer e escondo-me atrás de qualquer coisa onde elas não cheguem. Ás vezes elas usam o esguicha que me põe zonza e atordoada. Até chego a desmaiar. Ai, tais trabalhos! O Senhor sabe, o que elas têm é inveja; se elas soubessem bordar assim os bordados como eu, eles estavam no mundo inteiro. Às vezes fico com pena delas quando as vejo bordar. Dizem elas que é para América e Canadá… com certeza que, quando os bordados delas chegam a algum país, eles vão para o caixote do lixo. O D. Defluxo sabe, eu às vezes para as aborrecer, enquanto elas pintam as unhas e falam com as vizinhas às portas e janelas ou ficam horas a falar ao telefone, eu repiso e faço outras teias ainda mais lindas para elas não se gabarem que têm a casa mais limpa.

Às vezes é tanto lixo atrás dos móveis que mete nojo… Cala-te língua!... Só vendo, D. Defluxo.

- Então é por esta razão que a D. Aranha vai para as Freguesias?

- É D. Defluxo. Lá em cima, estou mais à vontade.

- Mas porquê, D. Aranha?

- Pelas mesmas razões que o Senhor disse à pouco. As mulheres das Freguesias trabalham muito e às vezes ajudam os maridos nas terras: primeiro são as sementeiras, depois é recolher o feijão, as favas, os milhos, tratar dos porcos e galinhas. Elas não estão sempre de vassoura na mão. Posso fazer as minhas teias com mais vagar. Acredite, D. Defluxo. As moscas nas Freguesias andam mais à vontade nas pocilgas e casas e aí, com um pouco de sorte, muitas vezes caem nas minhas teias, pois as moscas são muito curiosas. Eu nas Freguesias até fico mais gordinha, mais formosa!

- Então, adeus, D. Aranha, que tenha boa sorte.

- Igualmente para o D. Defluxo. Adeus!

Benjamim Carmo    

Povoação, 4 de Novembro de 2016.

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