Fui criado na Povoação.
Nasci na Povoação.
Conheço esta estrada desde criança — e nunca, mas nunca, a vi neste estado.
A ligação Furnas–Povoação não chegou aqui por acaso. Chegou aqui por culpa direta de sucessivos governos que prometeram, estudaram, anunciaram… e nada resolveram. Anos passam, mandatos mudam, e a estrada continua a cair — literalmente.
Derrocadas repetidas, cortes totais, populações isoladas, trabalhadores prejudicados, turistas em risco. E o guião repete-se sempre: comunicados, “monitorizações”, equipas no terreno e fotos para a imprensa. Obra estrutural? Essa fica sempre para o próximo governo.
Não falamos de um caminho secundário. Falamos de uma ligação vital, usada diariamente por quem vive e trabalha. E mesmo assim foi tratada durante décadas como um problema menor, empurrado para a frente com remendos e desculpas técnicas.
Hoje chamam-lhe “a estrada mais perigosa dos Açores”. Mas sejamos honestos: ela tornou-se perigosa porque foi ignorada durante anos por quem tinha obrigação de agir. Não foi o mau tempo. Não foi a natureza. Foi a falta de decisão.
Limpar pedras não é política de infraestruturas.
Cortar a estrada de vez em quando não é gestão.
Prometer projetos sem execução não é governação.
Como filho da Povoação, digo isto sem rodeios: a paciência acabou. Quem governa hoje herda responsabilidades, mas também faz escolhas. E continuar a adiar é escolher o risco.
Isto não é um ataque partidário.
É uma acusação factual à incompetência acumulada.
A estrada continua a cair.
E a confiança nas instituições… essa já caiu há muito tempo.
João Severiano Vales




Sem comentários:
Enviar um comentário