A Vila da Povoação acorda num reboliço que só costuma ver em dia de Procissão do Corpo de Deus ou quando a pastelaria decide dar algumas fofas grátis. A calçada junto à praia dos Pelames está entupida. Centenas de pessoas, com a cabeça no ar, parecem uma colónia de suricatas açorianas, todas ostentando os seus reluzentes óculos de papelão que fazem qualquer pessoa parecer um figurante de um filme de ficção científica dos anos 80.
A expectativa é monumental. O Sol começa a ser tapado pela Lua e o pânico velado instala-se.
— Ó Maria, isso é o eclipse ou é só uma nuvem das Lombas a passar? — pergunta o Sr. Manuel, tirando os óculos para coçar o olho e levando logo uma cotovelada da esposa.
— Não tires os óculos, homem! Queres ficar cego e depois quem é que vai buscar o pão 🥖 ao forno?! Olha lá bem, aquilo parece que deram uma dentada no Sol. Parecem os cachorros a comer a massa do chouriço!
À medida que a escuridão avança, a Povoação começa a passar pelas etapas do luto astronómico. Os galos das furnas e das encostas circundantes ficam completamente desorientados e começam a cantar em coro a meio da tarde, baralhando a vida a três dezenas de galinhas que entram em crise existencial e tentam ir para o poleiro à pressa.
Um grupo de turistas alemães montou tripés que parecem lançadores de mísseis, tentando fotografar o fenómeno. Ao lado, o Tio João, com um copo de vinho de cheiro numa mão e um caco de vidro fumado na outra (apesar de todos os avisos da Proteção Civil), vai fazendo o seu relato analítico para a multidão:
— Isto é a Lua a dar uma lição ao Sol. Muita mania que ele tem de que é que manda nisto tudo e que aquece a ilha... Chega a Lua, dá-lhe uma dentada e deixa-o a um canto! É bem feito, que ontem esteve um calor de matar no nosso concelho.
O momento máximo chega. Fica escuro. A temperatura desce dois graus e o vento sopra da Beira-Mar. Faz-se um silêncio solene na vila... até que se ouve um grito do fundo da multidão:
— Fogo! Apagou-se a luz e eu ainda tinha o peixe a fritar no fogão!
Cinco minutos depois, o Sol começa a espreitar outra vez, envergonhado, como quem pede desculpa pelo incómodo. As pessoas tiram os óculos de papelão, revelando marcas brancas à volta dos olhos e uma vontade súbita de ir comer uma fofa da Povoação para compensar o esforço cósmico.
O eclipse passou, a Povoação sobreviveu, e o Sr. Manuel lá suspira de alívio:
— Bonito, sim senhora. Mas agora vamos embora que isto de ver a Lua a armar-se em espertinha dá uma fome desgraçada.




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