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Relatório relativo ao período 2004-2025 (com dados do Continente, Madeira e Açores) mostra uma evolução positiva das aves dos meios florestais e urbanos, mas identifica tendências preocupantes em espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés, o cuco e o picanço-barreteiro.
As populações de aves comuns associadas aos meios agrícolas apresentam uma tendência negativa em Portugal Continental desde 2004, o que evidencia uma perda continuada de biodiversidade nestes habitats. Esta é uma das principais conclusões do mais recente relatório do Censo de Aves Comuns da SPEA-BirdLife, que analisa 22 anos de dados, entre 2004 e 2025.
Os resultados mostram realidades distintas consoante os habitats. Enquanto o indicador das aves dos meios agrícolas mantém uma evolução negativa, o indicador florestal apresenta uma tendência positiva. Pela primeira vez, a SPEA produziu também um indicador ambiental para os meios urbanos, igualmente com uma evolução positiva ao longo do período analisado.
Estes indicadores combinam as tendências populacionais de várias espécies representativas de cada habitat: 23 espécies no indicador agrícola, 20 no florestal e 25 no urbano. O indicador geral das aves comuns, baseado em 64 espécies, apresenta também uma tendência negativa entre 2004 e 2025.
“Os resultados deixam um alerta claro: a biodiversidade dos meios agrícolas continua sob forte pressão. A evolução positiva dos indicadores florestal e urbano é um bom sinal, mas não compensa a perda de biodiversidade nos meios agrícolas e os declínios de espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés ou o cuco. Manter séries de dados de longo prazo e aumentar a cobertura do censo é essencial para detetar estas mudanças que ocorrem nos ecossistemas e orientar medidas de conservação eficazes”, afirma Hany Alonso, coordenador nacional do Censo de Aves Comuns e Técnico Sénior de Ciência da SPEA.
Espécies comuns com declínios preocupantes
Entre as 23 espécies associadas aos meios agrícolas avaliadas regularmente, dez — cerca de 43% — apresentam um declínio moderado no período 2004-2025. Destacam-se a andorinha-das-chaminés, o mocho-galego e o abelharuco, a par de
Nos meios florestais, apesar da evolução positiva do indicador global, cinco das 20 espécies analisadas encontram-se em declínio moderado. O picanço-barreteiro, o cuco e a rola-brava estão entre as espécies com as maiores reduções populacionais ao longo dos últimos 22 anos. A cotovia-dos-bosques e o chapim-real apresentam igualmente tendências negativas.
Olhando para outras espécies, a felosa-poliglota, o peneireiro-cinzento e a alvéola-cinzenta também registam declínios moderados. Já a laverca e a águia-caçadeira apresentam declínios acentuados, enquanto a perdiz-comum, o chasco-ruivo e o rouxinol-grande-dos-caniços mostram tendências negativas.
Os resultados demonstram que o declínio das aves é transversal a diferentes ecossistemas e a diferentes grupos funcionais (insetívoras, granívoras, carnívoras), mas que é nos meios agrícolas que o declínio é mais expressivo, afetando quer espécies residentes como migradoras.
Maior participação reforça conhecimento sobre as aves
Em 2025, foram monitorizadas 52 quadrículas de 10x10 quilómetros em Portugal Continental, um aumento superior a 40% face aos anos anteriores e o valor mais elevado desde 2014. O trabalho abrangeu 1040 pontos de escuta, distribuídos pelo território continental.
Este aumento da participação permitiu recolher mais informação e melhorar a capacidade de acompanhar as alterações nas populações de aves. O relatório indica ainda que 73% dos participantes completaram as duas visitas previstas pela metodologia do censo.
Desde 2004, o Censo de Aves Comuns já recolheu dados em 179 quadrículas do continente. Trinta e sete dessas áreas foram monitorizadas durante mais de 10 anos do programa, e 92 quadrículas foram monitorizadas por um período superior a 5 anos, permitindo construir séries temporais particularmente importantes para avaliar alterações de longo prazo.
O censo assenta no trabalho de observadores voluntários, que visitam as áreas selecionadas durante a primavera e registam todas as aves vistas ou ouvidas em pontos de escuta definidos. Os dados recolhidos contribuem também para a avaliação das aves comuns à escala europeia, através do Esquema Pan-Europeu de Monitorização de Aves Comuns.
A SPEA agradece o contributo de todos os voluntários e colaboradores do censo, que têm feito um trabalho incrível, pois sem eles não seria possível esta recolha contínua de dados das aves comuns à escala nacional.
Resultados nos arquipélagos da Madeira e Açores
Nos Açores, o censo de 2025 abrangeu as nove ilhas, com 20 quadrículas monitorizadas por 29 voluntários e colaboradores da administração regional. Foram calculadas tendências para 17 espécies, com destaque para o aumento acentuado da rola-turca e para as tendências negativas da toutinegra-dos-Açores e do milhafre.
Na Madeira, foram monitorizadas cinco quadrículas e 86 pontos de escuta. A SPEA pretende reforçar a participação e a cobertura do censo no arquipélago, de forma a obter avaliações populacionais mais robustas nos próximos anos.
Para assegurar a continuidade e o crescimento deste programa, a SPEA considera prioritário manter o apoio aos voluntários, desenvolver ações de formação, reforçar a coordenação regional e garantir financiamento estável para a recolha, análise e divulgação dos resultados.



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