fazer um site gratis no aqui

Número total de visualizações de páginas

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

DESPISTE DE AUTOCARRO NA RIBEIRA QUENTE TERMINA EM TRAGÉDIA

 O fatídico 12 de julho de 1964: a queda à ribeira e a perda de uma jovem vida

Este é apenas um dos muitos acontecimentos trágicos que, ao longo das décadas, marcaram a memória coletiva do nosso concelho. A história de uma comunidade não é feita apenas de dias gloriosos; constrói-se igualmente com os seus capítulos mais sombrios e dolorosos.

Haverá ainda quem guarde na memória este drama ocorrido em meados dos anos 60?

No mês de julho de 1964, na via que estabelece a ligação entre as Furnas e a Ribeira Quente, um autocarro de passageiros despistou-se, precipitando-se por uma ravina abaixo. Do sinistro resultou a morte de um dos passageiros, que saltou da viatura na tentativa infeliz de se salvar. Na origem do acidente esteve um desabamento de terras.

A Cronologia dos Factos

Nesse dia 12 de julho de 1964, por volta das 06h30, a camioneta de passageiros que assegurava a carreira entre a Ribeira Quente e Ponta Delgada tombou pela ribanceira, indo imobilizar-se no leito da ribeira, nas imediações dos túneis. Ao volante seguia o Senhor José Carreiro, natural da freguesia das Furnas, pertencendo a frota a uma empresa transportadora da Vila da Povoação.

O trágico acidente deveu-se, em grande medida, à instabilidade do piso — à data, em terra batida —, fragilizado pelas intensas copiosas abertas nos dias anteriores. A viatura seguia com lotação elevada. Segundo relatos da época, pairava já algum receio entre os passageiros, uma vez que o condutor se desviava com frequência da atenção da estrada para dialogar com os viajantes.

A notícia do desastre propagou-se célere por toda a freguesia. De imediato, inúmeros populares acorreram ao local para prestar auxílio e inteirar-se da gravidade da situação, entre os quais professores e crianças em idade escolar. Registe-se que os registos fotográficos que perpetuaram esta tragédia serão, presumivelmente, da autoria do professor Guilherme Miranda — que lecionava então na freguesia —, pertencendo atualmente à sua coleção particular.

Entre os passageiros encontravam-se familiares de minha mãe, que ao longo dos anos recordou este episódio com frequência. Entre eles destacava-se um seu primo que se deslocava a Ponta Delgada para «tratar dos papéis» e recolher o passaporte numa agência de viagens, com vista a emigrar para os Estados Unidos. Na tentativa desesperada de se salvar, o jovem saltou da viatura em movimento; contudo, num trágico golpe do destino, a camioneta acabou por tombar sobre ele, colhendo-o mortalmente. Paradoxalmente, os passageiros que permaneceram no interior do autocarro sobreviveram todos, sofrendo apenas escoriações de diversa gravidade.

Consta na tradição oral que, durante o velório do jovem, se espalhou na câmara ardente um suave e inexplicável aroma a perfume — uma narrativa poética e piedosa que a memória popular guardou em redor desta perda prematura.

Os Testemunhos da Época

O Relato de Adelino do Rego Carvalho (à data com 14 anos)

«No dia 12 de julho de 1964, pelas 08h00, saí de casa para levar o almoço ao meu pai, que se encontrava a trabalhar numa propriedade agrícola nas proximidades — um costume muito enraizado entre as famílias locais. Tinha eu 14 anos. Quando saía à rua com a cesta, ouvi os brados aflitivos da Senhora Libânia, esposa do "Ti" José Arruda (conhecido por "José Verdete"), que vinha da zona da Ribeira.

A Senhora Libânia, em sobressalto, gritava angustiada. Vizinhas vieram à porta saber o que se passava e ela informou que ocorrera uma grande desgraça nos túneis: uma camioneta tombara à ribeira e presumia-se haver múltiplos mortos. Falava-se da Tia Xaviela (Maria Xavier), da Madalena da Tia Cascalha e de Carlos Peixoto, embora não se soubesse a extensão real do acidente.

Guardei de imediato a cesta em casa e corri para o local do sinistro. Quando lá cheguei, já muitos populares prestavam auxílio. Vi a Sra. Angelina Medeiros a chorar, acompanhada pela Sra. Trindade Melo. O Senhor António Amaral disse-me então: "Já levaram os feridos mais graves para a Vila da Povoação; a Angelina e a Trindade aguardam transporte, pois deu-se prioridade a quem precisava de cuidados urgentes."

Aproximei-me e verifiquei que, no geral, a maioria dos feridos não apresentava lesões de extrema gravidade. O transporte fora assegurado na carrinha de caixa aberta do Mestre João Freitas Nunes (o "Mestre João da Oficina"). Numa época em que os meios automóveis escasseavam na freguesia, o seu auxílio foi fundamental no socorro até ao posto de saúde da Povoação (atual Centro de Saúde). Ali, as vítimas foram assistidas pelo Dr. Cláudio Pires Coelho, tendo os casos mais melindrosos sido reencaminhados para o Hospital de Ponta Delgada.

Concluído o sobressalto, regressei a casa, peguei na cesta e fui ao encontro do meu pai, César Carvalho, que já se encontrava apreensivo com a demora. Relatei-lhe a tragédia. Meu pai foi de seguida dar a notícia ao Senhor Carlos Rita e a outros homens que trabalhavam no Garajau.

Ao cair da noite, ao regressar a casa, a minha mãe informou-nos de que a Tia Xaviela e a Madalena estavam afinal vivas — tendo esta última fraturado a bacia —, e que a única vítima mortal fora o jovem Carlos Peixoto, colhido pela viatura ao tombar.

Recordo-me ainda de visitar meus avós na Canada da Igreja Velha (desaparecida na catástrofe de 31 de outubro de 1997) e de ver o seu vizinho, o Senhor Aristides Linhares, com um penso volumoso na testa. O meu tio José de Melo comentava então que, se o Carlos não tivesse saltado da camioneta, talvez tivesse tido o mesmo destino comovente, porém salvação, dos restantes.»

O Relato da Senhora Trindade Linhares (conhecida por Trindade «Besuguinha»)

«A camioneta seguia muito sobrelotada e demasiado junto à berma. Vários passageiros mostravam-se receosos com a condução e com a instabilidade do piso. O inevitável aconteceu: o terreno cedeu sob o peso, uma das rodas afundou-se na lama e o autocarro capotou pela ribanceira abaixo, parando no leito do curso de água.

Quase todos sofreram ferimentos. Devido ao tempo em que permaneceram imersas nos poços de água antes de o socorro chegar, algumas vítimas — como a Tia Xaviela e a Madalena (que viria a casar com o Tio Jeremias da Senhora Clotilde) — entraram em hipotermia. Na Povoação, o Dr. Cláudio prestou os primeiros socorros e reencaminhou a maioria para Ponta Delgada.

Quinze anos mais tarde, já a residir no Canadá, sofri um ameaço de AVC. Nos exames médicos então realizados, apurou-se que um dos meus rins deixara de funcionar precocemente — sequela que a medicina local atribuiu às graves contusões e ao choque sofridos naquele fatídico acidente.»

A Vítima: Quem Era o Jovem Carlos?

O jovem que perdeu a vida ao tentar obter o visto de emigração para os Estados Unidos chamava-se Carlos Peixoto Vieira.

Nascido às 03h30 do dia 30 de maio de 1941, na freguesia da Ribeira Quente, era filho de Carlos Vieira e de Germana Peixoto (que contava 35 anos e já era viúva à data da tragédia). Carlos fora crismado na Paróquia de São Paulo a 23 de fevereiro de 1954, aos 13 anos. À data do acidente contava 23 anos de idade, residia na ilha de Santa Maria em casa da sua irmã e do seu cunhado, Aníbal Júlio Botelho, e exercia funções no Aeroporto de Santa Maria.

Quis o destino que repousasse para sempre na sua terra natal, onde foi sepultado no cemitério da Ribeira Quente a 13 de julho de 1964. Num triste e notável desígnio do destino, o seu cunhado Afonso (natural da Maia e casado com a sua irmã Liduína Peixoto) veio a falecer precisamente no mesmo dia do seu sepultamento.

Nota Final

Esta é uma narrativa dolorosa, mas constitui uma peça valiosa do património imaterial e da historiografia da Ribeira Quente. Em cada rua da nossa freguesia subsistem memórias que o vento continua a sussurrar: histórias de perdas, de despedidas prematuras e de sonhos interrompidos. São lembranças que custam a recordar, mas que atestam a resiliência e a solidariedade de um povo que, perante a adversidade, se une num abraço coletivo.

Ribeira Quente, 12 de agosto de 2026

João Costa Bril

Sem comentários:

Enviar um comentário

Seguidores

As mais vistas dos últimos 7 dias

Arquivo do blogue



 
Powered by Blogspot