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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A MATANÇA DO PORCO

Perdeu-se na viagem do tempo um pitoresco costume da freguesia onde nasci e, não só, como de todo o concelho povoacense.

        Era em dezembro, apesar dos terríveis vendavais, dos ventos que sopravam de arrogância e da chuva que, num vai-e-vem, teimosamente ia semeando caudais de água por grotas e ribeiras. Era este o mês por muitos desejado e, cada dia que nascia e noite que vinha, estava próxima a grande hecatombe … o dia da matança do porco, vulgarmente conhecida pela festa dos porcos.

        Do mais rico de haveres ao mais pobre, todos tinham um porco mais ou menos gordo para matar por esses dias. Os mais abastados durante o ano tinham ficado com a casa cheia, no dizer da nossa gente, com o abate de outros porcos em meses anteriores. Os menos privilegiados da sorte, com muito custo e sacrifícios, criavam um porco por ano com água das lavagens das loiças dos magros almoços, aos quais juntavam farelos extraídos das farinhas peneiradas para cozedura do pão caseiro.

        Eis que é chegado ao dia de matar o porco; convidam-se familiares, amigos, vizinhos, e todos se ajudam.

        As mulheres já tinham preparado a salsa, o alho e a cebola para a confeção das morcelas, e no momento afadigam-se a preparar umas favas guisadas bem condimentadas para agrado de toda a gente. Enquanto isso, os homens tiram o porco do curral, mas o bicho persiste em não sair, mas dois moços mais atrevidos saltam para a pocilga: um agarra-se às orelhas, outro ao traseiro do porco e conseguem trazer o animal para fora. Os outros homens agarram o porco e colocam-no sobre o banco de madeira já preparado. O porco debate-se sob as mãos dos seus algozes. Nisto, chega-se a dona da casa com a água tépida e logo lavam o peito do porco onde, em seguida, o matador enfia uma faca bem afiada, e começa a jorrar o sangue que vai caindo num alguidar preparado para recolha do mesmo, e uma mulher vai mexendo o sangue que sai de borbotão do lanho onde a faca penetrou; depois de retirada a lâmina, o animal no estertor da morte vai esperneando, guinchando e roncando. Lá vem a tradicional graça: -Para quem vai ser o torresmo de agonia? (fezes que o animal no estertor da morte lança para fora).

        Porco morto, vai para o chão para chamuscar; o lanho da face tapado com um carrilho e toda a gente se afadiga a chamuscar, uns largando o fogo nas sedas outros raspando e lavando até o animal ficar branquinho de limpo.

        Era interessante ver as ruas salpicadas de porcos à porta dos seus dos seus donos e todos atarefados nos arranjos dos animais.

        As crianças pareciam mariposas atraídas pela luz das fogueiras.

        Porco limpo, volta a ser colocado em cima do banco para o abrirem. O porco com o dorso apoiado no banco, de pés e mãos para cima escarrapachados, e nesta posição está preparado para a operação usual.

        O matador, com uma faca afiada, dá um corte no ventre do animal de alto a baixo e aos poucos, ora esquerda, ora à direita, vai cortando as banhas de ventre e afoito, cortando sempre, não se detém e corta o peito em forma de V, e logo depois ficam visíveis as vísceras do porco.

        Vem depois uma mulher com um alguidar, que o matador com as mãos possantes e ágeis vai retirando tripas, fressura, bofe, fígado e outras miudezas aderentes qua ainda saem mornas e fumegantes. As mulheres, logo de seguida, separam as vísceras umas das outras, que depois de esvaziadas as fezes, são bem lavadas em águas correntes das ribeiras ou das torneiras. São as tripas esfregadas com limões, folhas de milho, salsa, etc. … até ficarem impecáveis para serem usadas nos enchidos, que logo de seguida são as morcelas os primeiros.

        Chega ao momento de dependurar o porco na trave mais forte da adega ou da cozinha. Começam os homens a fazer alarido, “o porco não sobe em seco, não temos força, não sobe e seco.” Logo o dono da casa entende toda aquela lengalenga e lá trás a garrafa de aguardente para que todos tomem um copo, o chamado matabicho.

Família povoacense na matança do porco
        Logo depois o porco é dependurado e aberto em linha vertical tanto no dorso, como no ventre, para que os toucinhos e as carnes fiquem a arejar. As faceiras ficam bem arreganhadas, as espáduas e os lombares, por canas bem aguçadas. E assim fica o porco dependurado durante algumas horas.

        Segue-se o almoço com as benditas favas guisadas e o vinho de cheiro que corre generosamente do cajeirão, para os copos dos apreciadores.

        Durante algumas horas era costume visitarem-se uns aos outros e ver quem tinha o porco com melhor toucinho ou com mais carne e aí surgiam as partidas para os que queriam medir a dedo ou ao palmo a espessura do toucinho: alguém ligava um fio elétrico e os curiosos apanhavam choques, porque na sua maioria andavam descalços.

        As mesas estavam sempre postas para os visitantes, com doçarias diversas, vinho licoroso, massa sovada, figos passados e petiscos, enquanto uns estavam nos comes e bebes, havia um ou outro que, aproveitando a confusão, tirava um bocado do lombo do porco. Os porcos quando dependurados, era costume enfeitarem-se com ramos de laranjeira com os frutos, o que dava ao porco um ar de festa.

        Todas estas coisas estão na memória dos mais idosos.

        Quadra alusiva – decerto tao velhinha como a Salvé Rainha. Este ano matei um porco, que deu banha como um grilo, do risol e todo o corpo. Deu perto de um quartilho …

Benjamim Carmo

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