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quinta-feira, 14 de abril de 2016

RECORDAR A POVOACENSE SÃOZINHA - UM CRIME QUE CHOCOU TODA A BERMUDA E COMUNIDADE POVOACENSE

Esta é uma história que infelizmente terminou de forma trágica e que Um Olhar Povoacense vai dar a conhecer aos seus seguidores. Uma história que já conta com 38 anos e que envolve uma família da Povoação.

Achamos que apesar do triste destino desta nossa irmã povoacense, esta, não deve ser esquecida e devemos orgulhar-nos do seu curto percurso de vida, afinal era uma de nós, uma rapariga que adorava a sua terra e que até num determinado momento pediu aos seus pais para ficar atrás, com os seus padrinhos de batismo.

A história que hoje vamos dar-vos a conhecer é um relato da altura dos acontecimentos, uma tradução do Inglês para o Português e que apenas procedemos a algumas correções, mantendo o conteúdo tal como foi relatado pela imprensa Bermudense. Também apresentamos algumas fotos atuais da sua sepultura no cemitério de São João na Lomba do Loução e da casa ofertada pelos amigos da Bermuda à sua família (L. Loução) depois do trágico acontecimento e regresso à Povoação.  

Maria da Conceição Costa Furtado (Sãozinha) nasceu a 8 de Novembro de 1966 na Vila da Povoação, filha de Daniel Raposo Furtado e de Cesaltina da Costa (já falecida), moravam no Morro.

O seu pai, Daniel Furtado, como tantos outros micaelenses foi à procura de uma melhor condição de vida para a sua família, emigrando para a Bermuda, contratado para serviço de hotel. Partiu rumo ao território britânico ultramarino a 15 de Janeiro de 1969, com contrato pelo cônsul de então, Filipe Macedo.

A mulher de Daniel Furtado, Cesaltina, ficara na Vila da Povoação com a sua filha mais velha “Sãozinha” e o seu filho mais novo Paulo Furtado, mas a 5 de Dezembro de 1971 partiu rumo à Bermuda para se juntar ao seu marido e pai dos seus queridos filhos. Tinha então a Sãozinha 5 anos de idade e o seu mano Paulo 2 anos. Chegados à Bermuda a Sãozinha entrou de imediato para a escola e para a catequese, sendo de salientar a fácil integração da jovem povoacense na comunidade bermudense e a sua dedicação aos estudos e catequese, uma ótima aluna, assim a classificavam.

No ano de 1972 a jovem povoacense fez a sua Primeira Comunhão na Igreja de Santo António, no WarWick, sendo um momento de profunda emoção e alegria para ela e sua família.

Entretanto, fruto do amor que unia Daniel e Cesaltina dá-se o nascimento de mais um rebento, agora na Bermuda, mais um irmãozinho, o Maximino, apesar das dificuldades da vida e dos obstáculos do dia-a-dia para manter a família na Bermuda. A pobreza nunca foi vergonha para ninguém e manter a família unida era o mais importante para este chefe de família povoacense.

E a Sãozinha já era uma aluna da terceira classe da escola bermudense e na catequese era classificada com Excelente.

Maximino nasceu a 28 de Março de 1973 e foi batizado na Catedral de Santa Teresa a 22/04/1973. E a partir desse momento são os pais e três filhinhos na Bermuda.

No ano de 1974, a 24 de outubro, Cesaltina e os seus três filhos regressam à ilha de São Miguel, Vila da Povoação.

A Sãozinha
Daniel sente muito a ausência da sua querida mulher e três rebentos que viviam muito longe e, num ato de sacrifício, contraindo dívidas, chama de novo a família para a Bermuda, numa altura em que a Sãozinha não desejava assim tanto voltar, pedindo até para ficar com os seus padrinhos de batismo, os povoacenses Daniel e Margarida Ferro, mas, lá teve de acatar a vontade dos seus pais.

Foram grandes as despesas para o povoacense Daniel, mas a família voltara à Bermuda, desembarcando a 10 de Setembro de 1977. Assim regressava Cesaltina com os três grandes amores de 11, 8 e 4 anos de idade.

Chegados de novo à Bermuda, Sãozinha e o seu irmão Paulo começam de imediato a frequentar a escola e a catequese. A Sãozinha era já uma mulherzinha, muito educada, nunca faltava à escola nem à catequese, era assídua e pontual.

A mãe estranhava a sua piedade e recanto. Todos os dias junto ao sofá onde dormia, por falta de quartos, Sãozinha rezava de joelhos. Recatada, não queria que a sua mãe entrasse no seu dormitório ou no quarto de banho sem estar devidamente composta. Ela mesma tratava com esmero as suas roupinhas e escolhia aquelas que devia de vestir.

Na escola os professores estavam admirados de como Sãozinha não esquecera nada do seu inglês, enquanto estivera de regresso à sua terra natal, Vila da Povoação, e, em poucos meses, já tinha ela alcançado a 6ª classe na Bermuda.

Dia 22 de Fevereiro de 1978!

Como de costume a Sãozinha e o mano Paulo foram para a escola a pé, uns bons centos de metros de sua casa. No regresso das aulas era costume o seu irmão acompanhar alguns colegas rapazes e ela  meninas. O irmão chegou a casa pelas horas do costume, 4 horas da tarde, mas a Sãozinha não apareceu. A mãe não se preocupou porque ela no regresso da escola costumava parar em casa de famílias portuguesas conhecidas e amigas.

A noite aproximava-se e nada de Sãozinha regressar a casa. Sua mãe ficou com o coração apertado e muito preocupada, foi desesperadamente à procura da filha, perguntou pela “sua rapariga” aos vizinhos e amigos. Recebeu como resposta “ela hoje não passou por aqui”.

O pai de Sãozinha estava no trabalho sem saber o que se passava. A noite entra e a vizinhança e os amigos empunhando lanternas na mão procuram-na desesperadamente. Aproxima-se a meia-noite e é então comunicado à Polícia o sucedido. Esta coloca-se de imediato em campo à procura da jovem emigrante povoacense desaparecida. A noite encontrava-se frígida e chovia. No dia seguinte a rádio pedia auxílio continuadamente para a busca e na televisão era mostrada a sua fotografia. A tropa foi chamada a auxiliar a Polícia.

QUATRO HORAS E VINTE DA TARDE!

A poucas centenas de metros da sua casa aparece morta, esta inocente criança, vítima da sua pureza. Mãos assassinas violaram-na e depois mataram-na!

Pelas seis horas da tarde a televisão local dá a notícia com a fotografia da Sãozinha, e dá a conhecer o terrível crime, toda a Bermuda ficou chocada com tamanha selvajaria. Nunca na história da Bermuda se viu um crime deste. Tudo aquilo que se passou, não há palavras que o descreva. As autoridades, desde o Sr. Governador, manifestaram a sua repulsa e visitaram a família açoriana.

Quando souberam das dificuldades económicas desta família e a desgraça que se abatera sobre ela, os auxílios apareceram de todos os lados.

No meio de tanta infelicidade a mesma acabou por trazer um pouquinho de felicidade. Mas o que se desejava era que esta tragédia nunca tivesse acontecido.

Depois das formalidades legais, o corpo da virgem mártir seguiu para a morgue do hospital para ser autopsiada. Do corpo da jovem povoacense foram retiradas várias amostras para análises que foram enviadas para um laboratório de Londres, a fim de ver se era possível a descoberta das mãos criminosas. Afinal acabou por não ser necessário. No dia do funeral, o criminoso foi preso. Vinte e sete anos de idade! O assassino não era Português. Foi assim divulgada a notícia da prisão, o povo reuniu-se à volta do Tribunal onde foi proclamado o crime e presente o criminoso. A Polícia teve de conter a multidão para que o criminoso com a cabeça coberta e algemado pudesse dar entrada no Tribunal.

No sábado foi o funeral em Santa Teresa. Eram duas horas e a Catedral estava à cunha de gente.

Nas ruas um mar de gente de todas as condições sociais, pretos e brancos. A Polícia comandava o trânsito. E entra à hora marcada a urna de cedro da Bernuda com o corpo da Sãozinha, envolto em sedas, com o seu uniforme da escola, gravata no pescoço, crucifixo nas mãos. O seu corpo embalsamado, sorria. Era a Sãozinha, tal e qual. Não se viam os sinais da morte. O povo chorava e misturava as suas lágrimas com o doloroso choro da mãe.

As cerimónias foram conduzidas com cânticos de aleluia e lágrimas de saudade. A Missa foi celebrada e presidida pelo Monsenhor Filipe. O senhor Bispo assistira no trono. A missa foi dos anjos. Houve sermão em Português e em inglês. No sermão em Português, o pregador comparou a Sãozinha com a Santa Maria Goretti e disse que a povoacense Sãozinha será, um dia, a primeira Santa canonizada da Bermuda. Goretti tinha irmãos, era de família pobre, era a mais velha dos irmãos, tinha 11 anos, pela pureza foi morta. Onde está a diferença entre Goretti e Sãozinha? Questionou o pregador.

Na saída da catedral foi tocada a nona sinfonia de Beethoven, pedindo e cantando ao Senhor por intermédio da Sãozinha, para que “Os Homens Voltem a Ser Irmãos”.

Saiu o cortejo fúnebre rumo à sua última morada. Milhares e milhares de pessoas pelas ruas do percurso. São dois quilómetros e meio até ao cemitério. Centenas de carros seguiam atrás do enterro. Uma apoteose!

Chegada ao cemitério, muitas lágrimas e gritos dolorosos de dor. Há quem peça vingança: mas a Sãozinha perdoou, ela é uma santa.

Depois de algumas orações, a custo recitadas, ia ser coberto de terra aquele corpo virgem e mártir, mas a mãe amarrou-se à urna não querendo deixar a filha.

Até o tempo que tinha estado agreste e frio, no dia do funeral foi de primavera.

A urna e o funeral custaram umas boas dezenas de milhares de escudos, sendo oferecida pela funerária BULEY-GRAHAM, em atenção à comunidade Portuguesa e à família Furtado.

Túmulo da Sãozinha no Cemitério de S. João, L. Loução
Por fim foi sepultada provisoriamente na secção 4, sepultura 25-A, a menina que foi martirizada pela sua pureza.

O corpo da Sãozinha regressou à Povoação, Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios, Lomba do Loução a 20/08/1978, encontrando-se num túmulo privativo de mármore.

“Sãozinha, lá no céu onde te encontras, pede ao Senhor por todos nós”

Um Olhar Povoacense agradece à Sr.ª Margarida Ferro a sugestão para pesquisarmos e relatarmos esta história em memória da povoacense Sãozinha, bem como ao seu irmão Paulo Furtado pela sua prestimosa colaboração e cedência de informação.

Cemitério de São João, Lomba do Loução, onde está sepultada a Sãozinha 
                                   Biografia

                    Maria da Conceição da Costa Furtado

A SÃOZINHA

8/11/1966

Nasce na Vila da Povoação, São Miguel, Açores, sendo seus pais: Daniel Raposo Furtado e Maria Cesaltina da Costa;

4/12/1966

Batiza-se na Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe de Deus, Vila da Povoação;

5/12/1971

Chega à Bermuda com a Mãe e o irmão Paulo (22/9/1969), para se reunir com o Pai, emigrado na Bermuda;

28/4/1974

Recebe a Primeira Comunhão na Igreja de Santo António, Bermuda;

24/10/1974

Regressa aos Açores, ilha de São Miguel, na companhia da Mãe e dos irmãos Paulo e Maximino, este último nascido na Bermuda em 28/3/1973;

10/9/1977

Volta, de novo, à Bermuda com a sua Mãe e irmãos;

22/2/1978

É raptada, violada e assassinada;

25/2/1978

Funeral na catedral de Santa Teresa, Bermuda;

20/8/1978

É depositado o seu corpo em túmulo privativo, de mármore, no cemitério de São João, Lomba do Loução, Povoação.

Oremos:

Meu Senhor Jesus Cristo, que dissestes “deixai vir a Mim as criancinhas”, Cordeiro Divino que Vos apascentais entre lírios, atendei benigno as nossas preces para que o `Lírio da Bermuda´ - a Sãozinha – nos alcance humildade e pureza, no desejo ardente de Vos servir, com fidelidade, até à morte.

E, se for da Vossa maior glória, triunfo da Igreja e santificação das almas, dignai-Vos ó Jesus, glorificar com auréola dos Bem-aventurados aquela que, em sua vida tão breve, só teve a preocupação de fazer sempre a Vossa vontade. Ámen.
Túmulo de Mármore da Sãozinha


A Casa  Ofertada pelos Amigos da Bermuda à Família Furtado, L. Loução 

6 comentários:

  1. lembro-me como se fosse hoje..meus pais adoravam a Saozinha e é verdade...ela queria ficar connosco!Paz à sua alma!

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    1. I lived in Bermuda in 1978. I was a teenager. I remember Connie and this tragic story and my heart goes out to her and her family. I will be back in Bermuda in January 2018, I know it will be close to 40 years. I would like to honor Connie in some way. Do you know if any of Connie's family is still in Bermuda?May you all have comfort and peace.

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    2. Yes, his younger brother, Maximino, is working in Bermuda

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    3. I just realized... today is her birthday. November 8th.

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  2. Que olhes por nós lá do Céu, Connie, minha querida priminha ( de grau afastado ) e amiguinha de infância. Chegámos a brincar juntas e tenho lindas fotos contigo. Ainda tenho os teus brinquedos que a tua mãe me deu, depois da crueldade que te fizeram.
    ÉS UM ANJO NO CÉU QUE VELA POR NÓS!

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  3. My heart goes out to the family of Connie, to all who love and miss her. I remember her. I lived in Bermuda in 1978.

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