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domingo, 31 de janeiro de 2016

“AINDA SOU DO TEMPO EM QUE PARA SE ENTRAR NO CASINO DAS FURNAS TINHA DE SE USAR SMOKING”

In Correio dos Açores / Escrito por Carla Dias
Com 71 anos, António José Carvalho recorda os tempos áureos do Casino das Furnas e do Hotel Terra Nostra, onde trabalhou 43 anos. Foi admitido com 17 anos no bar e andou meses a treinar pegar em rolhas com um garfo e uma colher. Foi assim que conseguiu servir “osso buco à milanesa” sem sujar os clientes. Uma vida que lhe faz lembrar o tempo em que só a nata da sociedade micaelense ia às Furnas, mas também o tempo em que “não dediquei o amor que tinha à minha mulher enquanto trabalhei”.

Já está reformado, mas trabalhou muitos anos no hotel Terra Nostra...

Estou reformado vai fazer 9 anos. Comecei a minha vida com o meu pai, que era cabouqueiro mas achei que aquilo não era vida para mim e fui para os Serviços Florestais. Depois virei para pedreiro, e quando começaram aqui as obras da Igreja voltei para trabalhar com o meu pai, mas não com ele directamente. Eu estava aqui e o senhor Mariano Cabral, que era padrinho de um irmão meu, precisou de gente para o hotel e falou com a minha mãe. Assim que soube disso, foi fugir porque naquele tempo as pessoas eram escolhidas para ir para aquele hotel. Não era qualquer um que entrava ali.

A hotelaria agora está completamente diferente daquilo que era no meu tempo. Antigamente passava de geração em geração aquilo que a pessoa sabia. Quem me ensinou a dar os primeiros passos em hotelaria foi um rapaz que tinha a 3ª classe e que a tirou à noite. A única coisa que sabia dizer de inglês era “thank you” que para aquela altura já era muito bom porque os estrangeiros que tínhamos aqui eram os americanos da Base. Os restantes clientes do hotel eram os nossos habituais de Ponta Delgada, Terceira e Faial que vinham aqui passar as suas férias.

Quantos anos tinha?

Fui admitido com 17 anos e fui para o bar, sem perceber nada daquilo. Aprendi a fazer cafés, como se serve uma cerveja, como se pega numa bandeja. Depois quem me ensinou deu-me um garfo e uma colher para a mão com uma bandeja e rolhas. A minha vida era atrás do bar a pegar naquelas rolhas com o talher e eu olhava para aquilo e não percebia o que estava a fazer. O senhor Orlando Brízida, que era o chefe de sala dizia para aproveitar o que o senhor Rosa me ensinava porque se eu gostasse dessa vida, o meu começo eram aquelas rolhas porque quem souber pegar numa rolha sabe pegar num “osso buco”. Naquela altura havia um prato que era o “osso buco à milanesa” que se servia no hotel que toda a gente se desviava e só havia dois ou três funcionários que serviam aquele prato. Era complicado porque, agora já só vai para o prato a carne, mas antes ia para o prato com osso, e tínhamos de pegar no osso e a carne com o talher para pôr no prato do cliente. Eu olhava para o senhor, que tinha idade para ser meu pai, e entendi que se ele dizia é porque era verdade. Fiz aquilo durante Junho, Julho, Agosto e Setembro. Em Setembro veio aqui um irmão de um padrinho meu do crisma, que eu considero-o a ele meu padrinho porque ele é que foi comigo ao altar, o Duarte Pimentel. O Senhor Rosa já lhe tinha dito que se ele quisesse um empregado bom para Santa Maria para me aproveitar porque devia estar a acabar o meu contrato e que me ia embora. Duarte Pimentel foi falar com o senhor Baptista, que era o chefe dos hotéis, e pediu que se eu fosse sair que me levava para Santa Maria, que tinha falta de pessoal classificado e que precisava de pessoal polivalente, no bar e no restaurante. O senhor Baptista deu aval e fui oito anos para Santa Maria. Acho que foi a melhor saída que tivesse na minha vida porque aqui no hotel entrava-se às 7h30 e saía-se à meia-noite. Começava-se à Segunda-feira e parávamos ao Domingo à noite para voltar à Segunda-feira. Aos fins-de-semana não se via a família, porque saíamos no Sábado de manhã de casa e aparecíamos no Domingo de manhã para tomar banho e voltar para o trabalho para os Serões do Casino que aquilo era lindo, com Teófilo Frazão, a Orquestra do Terra Nostra que vinha de Santa Maria fazer os Verões. Mas no Terra Nostra as pessoas diziam-nos que estavam na sua casa. Lidávamos com as pessoas como se fossem da nossa família e então chamávamos “nosso” ao hotel. Era uma coisa que o meu patrão achava muita piada. Ele dizia que as Furnas estavam muito bem entregues porque enquanto os funcionários disserem que o hotel é deles, aquilo vai andar que é uma maravilha.

Lembra-se quanto ganhava antes de ir para Santa Maria?

500 escudos por mês. Em 1963, para o horário que se fazia não era nada do outro mundo mas sabíamos que aquilo era garantido e dava à minha mãe o dinheiro.

Quando fui para Santa Maria ainda fui ganhando o mesmo dinheiro mas quando chegou ao fim do ano o Duarte Pimentel disse que ia ganhar igual aos que trabalhavam lá. Porque em Santa Maria tínhamos de pagar as fardas, enquanto o Terra Nostra fornecia os dolmens e os smokings que usávamos.

A partir daí passei a ganhar 750 escudos em Santa Maria. Tanto dinheiro. Mas continuava a mandar os 500 escudos para os meus pais. Ficava com o resto e com as gorjetas porque para Santa Maria eu fui na época áurea, e já tinha sido mais áurea, na altura da passagem dos americanos mineiros que vinham de África do Sul que traziam as algibeiras cheias de dinheiro. Passavam durante a noite, paravam e queriam beber “Mateus Rosé” e “Casal Garcia”.

Em Santa Maria é que percebi realmente que gostava daquilo, porque comecei a trabalhar 8 horas por dia no terminal do aeroporto. Então comecei a investir em mim, comprei livros, comprei um curso de discos da Reader’s Digest, comprei um gira-discos pequenino para por os discos a tocar onde falavam como se servia, como se entrava, como se saía. Comprei muito livro e das primeiras coisas que comprei foram revistas de vinhos, porque não havia formação. O que sabíamos eram os mais velhinhos que nos passavam o que sabiam e quem gostava evoluía, quem não gostava ficava para trás, porque eles não repetiam muitas vezes a mesma coisa.

Agora não, há escolas, leva-se três ou quatro anos para tirar um curso, vão estagiar, depois voltam para a escola. Eu apanhei muitos estagiários e a escola é muito boa para a teoria, mas na prática não. Eu dizia aos estagiários para pegarem na bandeja, para pegarem no talher e eles diziam-me que não sabiam trabalhar com talher, que apenas sabiam o serviço à americana. Nós fazíamos o serviço à inglesa directo, mostrar a travessa ao cliente, servir aquilo que o cliente quer. A partir daí o meu patrão disse que ia passar a dar formação no Hotel Terra Nostra.

Já depois de voltar de Santa Maria?

Isso já depois de voltar de Santa Maria, de ter ido para a guerra naquela maldita terra, na Guiné. E continuei a mandar dinheiro para casa. Naquela altura os soldados tinham um salário mensal que podíamos enviar 75% do dinheiro para os pais. Sabia que os meus pais precisavam e mandei sempre dinheiro para o meu pai, mesmo na tropa.

Depois voltou para Santa Maria?

Voltei porque o meu posto era lá. Em 1969 vim às Furnas casar, voltei para Santa Maria sozinho porque já sabia que o hotel ia fechar. Quando fechou e se chegou à altura de decidir para onde queria ir, perguntaram se queria ir para o hotel São Pedro ou para as Furnas. Disse que queria voltar para as Furnas mas o Duarte Pimentel disse que gostava que fosse com ele para o hotel São Pedro.

Chegou a ir para o Hotel São Pedro?

Cheguei a fazer lá jantares de gala. O pessoal das Furnas é que ia para as mesas presidenciais, com os nossos fraques. Ia muitas vezes ao São Pedro, onde fiz serviços que me marcaram. Um serviço quando veio o Bispo de Boston que era dos Arrifes, D. Humberto de Medeiros, gostei muito. Um serviço que fizemos para a festa de despedida do Chefe da Legião Portuguesa. Quando vinha o Presidente da República, ou um Ministro, era sempre pessoal das Furnas que fazia os serviços.

Era um prazer que nos dava fazer isso. Quantas vezes fui ao Jardim José do Canto fazer serviços do São Pedro, até ao Palácio de Santana no tempo em que ainda era da família Hintze Ribeiro. O pessoal das Furnas é que ia fazer.

Depois é que o senhor Mário Oliveira disse que o pessoal do Terra Nostra não ia trabalhar mais para o São Pedro e como conhecia muita gente em Ponta Delgada, começámos a pegar nesses serviços. Fizemos muitos casamentos no Jardim José do Canto.

Voltando aos tempos áureos do Terra Nostra e ao Casino…

Eu ainda sou do tempo em que para se entrar no Casino das Furnas tinha de se usar smoking.

Eu é que desmontei aquele casino, a roleta que era igual à actual roleta do Casino Estoril. Uma coisa linda, grande e muito pesada. Tinha uma mesa octogonal que sempre tive o cuidado de guardar enquanto estive lá, que era uma recordação do jogo naquele casino.

No casino havia as tardes infantis para os meninos, com o chá das 5, que se servia uma bolacha feita pela Finançor, que penso que já não existe, que era a bolacha manteiga toda picadinha. Servíamos chá aos meninos dos hóspedes, com matiné de macaquinhos e nós servíamos chá, bolachas, bolo inglês e sumo de laranja.

Naquela altura era o serviço que fazíamos. Por isso é que digo que o Terra Nostra na altura não dava para si, porque fazíamos mais do que aquilo que gastávamos com os clientes. O Hotel Terra Nostra sempre tratou bem os seus clientes.

Mas aqueles serões no Casino, as matinés, os jantares que se faziam dos torneios de golfe, do tiro aos pratos. Ao lado do casino havia um pavilhão onde de Verão fazíamos os jantares dos americanos e dos torneios ali. Enfeitávamos o tecto daquele pavilhão com verdura e hortênsias, forrava-mos os bares com criptoméria, para ser mesmo uma festa. Vinham os Athaídes, os Ernesto José do Canto, os Motas, os Bettencourts, os Sampaios, os Câmaras, os Veríssimos…

Só a alta sociedade ia para as Furnas…

Só a alta sociedade de Ponta Delgada é que ia para o Terra Nostra. Da Ribeira Grande vinha a família do Chá da Gorreana e os proprietários do Solar da Mafoma. Nós conhecíamos o avô, o pai, filho e netos. Eu conheci famílias na quarta geração quando me vim embora.

A prova que conhecíamos, e tratávamos, os clientes como família é que chegava-se à semana da Páscoa e havia a tradição de se ir almoçar ao Terra Nostra. No hotel, iam-se mudando os directores que muitos não conheciam os costumes da terra. Um ano, olhei para os mapas de serviço e fui à recepção ter com a Fátima Rosa, que hoje é sub-directora e filha do Ernesto Rosa que me ensinou a trabalhar. Disse que estava admirado porque havia famílias que costumavam vir todos os anos pela Páscoa e que não apareciam naquele ano e perguntei se ela sabia se vinham. Disse-me que não sabia. Fui para o restaurante e apontei num papel quantas pessoas de cada família costumavam vir na Páscoa. Fui ter com o senhor Mário Oliveira, grande e bom amigo, que aqueles eram os nossos clientes habituais e que era Quarta-feira antes da Páscoa e que não via nenhum andamento. Ele disse que ia saber, mas na recepção não havia nada.

O que aconteceu?

Eles como já sabiam que eu sabia que eles vinham às Furnas almoçar no Domingo de Páscoa não marcaram. Mas se eu não estivesse, eles apareciam no dia e tinham de ir para a lista de espera porque no Domingo de Páscoa e na Primeira Dominga, se quiser vir almoçar ao Terra Nostra, tem de reservar com antecedência.

Era tradição as pessoas irem almoçar às Furnas, o célebre filete e o bife à regional. Muitos vinham, ultimamente por causa da feijoada e dos torresmos de molho de fígado que, não se faziam no hotel, mas um chef novo o José da Costa Cabral, introduziu esses pratos.

E depois, os habituais apareceram?

Pois apareceram. Olhe, vou contar esta história. O senhor Labieno Machado, chegou-se ao Sábado de Aleluia e não havia marcações no seu nome. Mas era uma pessoa que ou vinha na Páscoa ou na Primeira Dominga e eu arrisquei e marquei o nome dele. No Domingo, quando começou o almoço, chamaram-me que tinha uma chamada no telefone. Era o Senhor Labieno Machado a dizer que se tinha esquecido de marcar mas que vinha almoçar às Furnas. O nome dele já estava marcado.

Eu conhecia os clientes do Terra Nostra, quando os via entrar avisava na cozinha que iam sair tantos filetes ou tantos bifes. E um bife, na altura, custava 12 escudos era muito dinheiro. Depois da Revolução é que já era 20 e poucos escudos. Quando fui para o Terra Nostra, um café custava 20 centavos ou uma serrilha como se dizia. Um almoço no Terra Nostra custava 2 escudos e meio.

Tenho uma ementa do Terra Nostra muito anterior a 1963 e tem ali preços que eu não sei como se ganhava dinheiro. Mas o Terra Nostra era especial em tudo. Enquanto os outros hotéis tinham sopa, peixe, carne e uma sobremesa e outros hotéis que tinham duas sobremesas, o Terra Nostra tinha hors d’oeuvre (entrada), sopa, peixe, carne e duas sobremesas. Depois cortou-se o hors d’oeuvre e começou a haver de entrada lagosta, meia lagosta por pessoa.

Eram mesmo outros tempos...

Entrar no Terra Nostra impunha respeito. No hotel Terra Nostra era reservado o direito de admissão. Só entravam hóspedes e seus convidados, mas também não havia os quartos que há hoje. Eram pouco mais de 15 quartos e as suites.

Eu lembro-me de um porteiro do hotel, um senhor Costa, com a sua farda e boné (cap) azul, gravata e camisa branca que impunha respeito naquela entrada e um dia o homem mais rico desta terra, o senhor Hintze Ribeiro, chegar-se à porta do hotel e ele perguntou se ele era hóspede do hotel. Quando ele respondeu que não, não o deixou entrar. É que no dia antes tinha havido uma zaragata no hotel e foram-se queixar que houve muito barulho e as pessoas tinham ido para ali para descansar, não queriam barulho.

O hotel era considerado uma segunda casa, não havia barulho, músicas, nada. Música no Terra Nostra era só no mês de Agosto e nos casamentos, mas praticamente ninguém vinha casar às Furnas porque era puxado.

Eu trabalhei ali 43 anos, dediquei a minha vida àquele hotel, em prejuízo da minha família. Digo que, se o tempo voltasse para trás, eu fazia exactamente igual mas de certeza que ia tirar tempo para a minha família. Não dediquei o amor que tinha à minha mulher enquanto trabalhei.

Ao Domingo, eu saía às 7h30 da manhã de casa, vinha almoçar às 11 horas e quando fosse 11h30 tinha de estar no hotel para tocar o gongo.

O gongo?

No Terra Nostra havia um gongo que eu tocava a primeira vez e os clientes já sabiam que ia abrir o restaurante e quando abria o restaurante, meia hora depois, voltava a tocar o gongo, já com outro toque. Tocava primeiro na recepção e depois ia à escada tocar para se ouvir nos quartos todos. Havia pessoas que vinham para a recepção para me tirar fotografias a tocar o gongo.

Já não há tanto “amor à camisola” como no seu tempo?

Agora há amor ao dinheiro. Hoje ninguém quer um trabalho, querem um emprego e o fim do mês. Isso dói-me apesar de na altura também ter de me preocupar com o fim do mês. Eu digo-lhe, só no fim da minha carreira é que comecei a ganhar dinheiro. O senhor José Paiva é que me disse que os outros chefes de sala dos outros hotéis ganhavam tantos contos e eu ganhava metade do ordenado deles. Quando se chegou ao início do ano, fez a proposta para eu ganhar 200 contos. O Doutor Luís Bensaúde telefonou ao senhor Paiva e perguntar porque tinha recebido aquela proposta. Ele explicou e ele autorizou.

A primeira vez que recebi aquele ordenado vim para casa a tremer porque nunca tinha visto tanto dinheiro na minha vida.

Quanto ganhava antes?

Ganhava 50 contos. A partir daí comecei a ganhar 200 contos, mas continuei a trabalhar igual. Mas fui abrir o hotel do Nordeste, fui abrir o da Terceira, ganhei um aneurisma, e estive um ano sem trabalhar. No dia em que o médico me deu alta, cheguei a casa e a minha mulher tinha as passagens para eu ir no dia seguinte para o Faial, abrir o Hotel Canal. Depois fui fazer a passagem de ano para o Hotel Canal e quando regressei o senhor Paiva disse que eu não saía mais. Mas nessa altura já não era chefe de mesa, já era relações públicas do hotel e formador, tinha 60 anos.

Inaugurou todos os hotéis...

Todos os hotéis Bensaude eu inaugurei. Fiquei contente porque estavam a acabar o hotel Açores Lisboa, na Praça de Espanha, e eu pensei que não ia ter trabalho com esse. Mas naquele fim-de-semana o doutor Luís Bensaude vem às Furnas e diz-me para fazer as malas que ia para Lisboa. Disse-me que ia inaugurar o Açores Lisboa e que ia a equipa toda: eu, a Luísa, a Ana, o Luís Pedro, o senhor Saraiva, o Marco, sempre a mesma equipa. Disse-lhe que já tinham uma equipa lá e que não havia necessidade de eu ir e ele respondeu-me que quem abriu o Nordeste, a Terceira e o Faial, tinha de abrir o último. Por enquanto é o último. E fui. Estive em Lisboa quase três meses.

Costumo dizer que fui um escravo, mas posso lavar a minha cara porque não trouxe nada a que não tinha direito. Por isso, ainda hoje, quando há uma festa ou quando acontece qualquer coisa da Bensaude o meu telefone toca e dizem sempre que contam comigo.

Isso é motivo de orgulho...

Agora é. E ainda mantenho uma boa relação com a família Bensaude. Ainda há dias, estive a falar num grupo de amigos e disse quem me dera um dia juntarmo-nos todos desse tempo, e cada um contar as suas histórias e depois passar aquilo para livro, para os vindouros olharem para aquilo e reconhecerem o que fizemos.

“Será possível o que estes homens fizeram?”, e sem condições. Quantas vezes queríamos um copo para servir vinho e não tínhamos? Quer dizer tínhamos, e sempre boa loiça, mas tinha de se lavar para servir novamente. Tínhamos um bom talher, tínhamos loiça Kristoff, até travessas de servir à mesa de Kristoff.

Hoje já não são precisas travessas de servir, essa atenção pessoal perdeu-se na hotelaria?

Naquele altura tínhamos clientes habituais e a relação que tinha com eles é diferente porque hoje em dia aparece uma pessoa um dia e no outro dia é outra. Naquele tempo não era assim.

Há pessoas, mesmo do continente, que vinham todos os anos. Tenho um casal que é de Fiães, que já é tão amigo que vem passar serões para a minha casa. Dorme no Terra Nostra e vem passar serão e come na minha casa. São amizades que me ficaram do Terra Nostra.

Mas aquele hotel era lindo. Até as mãos das portas tinha TN (Terra Nostra), todos os talheres, pratos, chávenas de café, copos tinham TN gravado. Toda a empresa tinha chancela. Quando eu comecei a trabalhar ali sentíamos brio, quando saíamos a porta do hotel parecíamos doutores. Não saía para lado nenhum, ou estava no hotel ou em casa.

A vida que levávamos no hotel era tão bonita que não queríamos ir para bar nenhum porque não havia em lado nenhum das Furnas, aquilo que havia no Terra Nostra e nós sentíamo-nos superiores às outras pessoas. Hoje, ninguém dá valor a isso. Hoje querem pouco trabalho e muito dinheiro. Antes sentíamos prazer a trabalhar. Cheguei a trabalhar com 14 pessoas no restaurante e de Verão assobiávamos para dar conta do recado. Só casamentos era uma loucura. Mas gostei muito daquela vida."

In Correio dos Açores
Criado em 30-01-2016
Escrito por Carla Dias

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