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domingo, 1 de novembro de 2015

PÃO-POR-DEUS A TRADIÇÃO ANDA NA VOZ DO POVO

“Pão-por-Deus, por alma dos seus”. Neste dia 1 de Novembro, era este o pregão nas ruas da gente pobre que sempre fomos. Não é uma tradição açoriana, já que terá sido trazida pelos primeiros habitantes e reconhecem-se as suas origens em vários pontos do Continente. O que se sabe é que o “Pão-por-Deus” ganhou contornos especiais nas ilhas, fruto do isolamento, das fomes e dos cataclismos e daqui partiu para outras paragens há quase 300 anos, como acontece em Santa Catarina na Brasil.
Começou por ser um peditório pelas almas, para se tornar mais tarde, um dia de partilha, do pouco que havia e de que tudo se dava. Dar um pão pelas almas, nesta altura do ano, era como que fazer o regresso de memórias e dores, despejadas do alto das torres que não se cansavam de repetir os “sinais” a lembrar que “as misérias deste mundo um dia passam”.

O culto dos mortos era peça fundamental no mundo dos vivos. A tradição não é estática e por isso mesmo, desde o tempo do “pão” dado anonimamente e deixado no parapeito da janela, para ser recolhido pela primeira pessoa que passasse, desde o cálice de aguardente ou do copo de vinho pelas almas, até às saquinhas de retalhos de fazenda, com castanhas e rebuçados à mistura, vai uma grande distância.
Tive a dita de conhecer, na Comissão Reguladora dos Cereais dos Açores, o grande etnógrafo que foi Francisco Carreiro da Costa. Disse-me ele um dia, por esta altura do ano, que a tradição do Pão-por-Deus era das coisas menos estudadas dos Açores. E explicava: “Como grande parte do nosso povo precisa de esmola todos os dias, nunca ninguém se preocupa em estudar o motivo de haver o dia da esmola uma vez no ano”. E é curioso notar que num dos livros mais importantes de investigação das tradições açorianas, do final do século XIX, “A Alma do povo Micaelense”, do Padre Ernesto Ferreira, se fala de tanta tradição e esta nem seja mencionada. Igual vazio se nota no Cancioneiro, tanto de Teófilo de Braga, como de Armando Cortes-Rodrigues, a avaliar pelo estudo feito na tese de doutoramento de José de Almeida Pavão Jr..
“Pão-por-Deus” andava na boca das pessoas e congregava não só as crianças, mas gente graúda que não resistia ao sabor de um prato de milho cozido ou a um punhado de castanhas cozidas.

Aliás, no “ Pão-por-Deus”, todos os que podiam tinham nas suas casas uma boa panela de milho cozido, de preferência branco misturado com amarelo, e as castanhas eram indispensáveis, compradas à quarta (medida de que hoje poucos se lembrarão) e cozidas para dar e comer. Rebuçados e guloseimas, tudo isto surgiu mais tarde para gáudio do rapazio e das meninas que neste dia lá iam tirando o desconsolo de todo o ano, mesmo com os rebuçados feitos em casa, com calda de açúcar e um pouco de vinagre.
O São Martinho não fazia parte das tradições rurais dos Açores e era nestes dias que se coziam as castanhas e se bebia um copo “pelas almas”.

Da tradição fica a recordação das saquinhas de chita, ou de quadradinhos de fazenda que as crianças levavam e que gostavam de trazer cheias de doces ou outras guloseimas. Mais que tudo, ficava o agradecimento e para quem abria a porta, a sensação de “já termos estado no outro lado da barricada”. E recorda-se sempre a forma como se dizia:

Abre a porta ao Pão-por-Deus

Dá-me qualquer esmola

Seja por alma dos seus

O que puser na sacola….

Segundo o Prof. Rubens Pavão, “era uma das tradições mais arreigadas na alma do povo de S. Miguel e dos Açores, em geral, a qual teve a sua origem no sufragar as almas, as chamadas esmolas perdidas, por serem fora de casa e distribuídas no maior recato. Sobretudo nas freguesias rurais, mas também na cidade, viam-se, no dia 1 de Novembro, grupos de crianças que andavam de porta em porta, pedindo Pão por Deus, recolhendo em saquinhas, dinheiro e guloseimas e, por vezes mesmo, alguns géneros alimentícios; afinal, todos davam o que tinham por casa. Era grande o reboliço dos grupos e, lugares havia, em que iam mesmo entoando: Pão por Deus, fia a Deus/Seja tudo pelo Amor de Deus!"


José Manuel Santos Narciso

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