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terça-feira, 17 de novembro de 2015

DAVID RITA MAIS UM JOVEM ARTISTA POVOACENSE NA IMPRENSA REGIONAL – JORNAL CORREIO DOS AÇORES

Mais uma rubrica “Os nossos talentos” da autoria do Dr. António Pedro Costa que veio ao encontro de um jovem valor povoacense, o ribeiraquentense David Rita, entrevista que saiu ao público no passado domingo, 15 de novembro de 2015, edição n.º 30785 do conceituado Jornal Correio dos Açores.
“As Cantigas ao Desafio fazem parte do ADN da cultura dos Açores”

David Rita, natural da Ribeira Quente, possui uma empresa de som e de eventos festivos, onde trabalha como promotor. A empresa marca a sua presença em festas e arraiais populares e desde sempre participa em movimentos culturais e tradicionais, como cantigas ao desafio, tocando violão, grupo de foliões e participa na sua maioria com o pai Jorge Rita. Tocou órgão na igreja da freguesia e é formado em Energias Renováveis e em Informática, sendo a sua principal actividade a música, fazendo espectáculos ao vivo e montando som em eventos festivos.


Correio dos Açores: Aos 17 anos começaste a tua carreira musical, conta-nos como aconteceu.

David Rita: Tudo começou nas brincadeiras de escola, nos anos 2006/2008, entre amigos que sempre tiveram gosto pela música e de fazer os nossos intervalos em espaços de tempo divertidos. Bastava uma guitarra, um tocador, neste caso eu, um percussionista e a restante malta a cantar. Foi aí que comecei a mostrar as minhas capacidades, o meu dom e as minhas competências enquanto músico ou “curioso”. Formávamos grupos, bandas para animar os eventos que se faziam na escola, nomeadamente o Natal, Carnaval, entre outros. Formamos uma banda na qual a nomeámos de Sputnik. O próprio nome invulgar já retratava a nossa atitude e essência brincalhona de querer simplesmente participar nas actividades escolares e animar os que nos ouviam. Com toda essa conjuntura formei um grupo mais sério com um dos amigos de escola, que ficou conhecido por “Duo David e Romeu” e começamos a construir nosso sucesso.

Qual foi o teu primeiro instrumento musical?

Orgulho-me de dizer que meu primeiro instrumento musical foi o acordeão. Foi com este instrumento que aprendi muito do que sei hoje sobre a música. O meu pai tocava acordeão e sempre gostei de ficar olhando e ouvindo a sonoridade linda e única daquele instrumento musical. Ele deu-me um empurrãozinho no início e quando comecei nunca mais parei. Tinha cerca de 10anos quando comecei a “arranhar” algumas notas no acordeão. Ao longo dos anos, fui evoluindo sozinho, sem ajuda de ninguém, nem formação musical. Foi somente o gosto, o dom, a persistência e a pesquisa que me levou a saber muito do que sei. Com cerca de 13 anos comecei a fazer uns “pontos” na guitarra clássica. E por essa idade tive o meu primeiro teclado que contribuiu muito para que evoluísse na música.

Referiste o Duo David e Romeu, conta-nos como surgiu?

O Duo David e Romeu surgiu nas tais brincadeiras da escola. Começamos por actuar na escola, depois no cineteatro das Furnas e de seguida já estávamos nos palcos. A primeira actuação mais séria do duo foi na Vila da Povoação na festa da Mãe de Deus, em 2008. A partir daí, fomos ganhando conhecimento, experiência e o nosso tipo de reportório agradava o povo que nos ouvia. O reportório era composto, essencialmente, por música popular portuguesa. Eu fazia a 2ª voz e o Romeu a 1ª. O Romeu sempre foi mais extrovertido e conseguiu imensos contactos. Actuamos em muitas freguesias de São Miguel. Fomos juntos à ilha das Flores duas vezes, uma na Fajãzinha e uma em Ponta Delgada. E também fomos juntos uma vez à ilha do Corvo. Chegávamos a ter cerca de 50 espectáculos por ano.

Subiste ao palco com vários artistas, mas optaste por cantar a solo, porquê?

Sim, tive vários projectos, actuei com vários artistas como Pedro Silva, Henrique Ben-David, Marina Pereira, Raúl Damásio, Dino Oliveira, Zica, Paulo Furtado, Papinha, Paulo Leite, Emanuel Bandarra, Michael Goulart, Verónica Arruda, Fábio Furtado, entre muitos outros artistas. No ano 2014, comecei a tocar e cantar sozinho. Formei o meu próprio projecto com o nome “Baile David Rita” com um reportório essencialmente popular, kuduro, brasileiras, forró, etc. Só no ano 2014 desloqueime 4 vezes à ilha das Flores. Foi um ano de sucesso individual e desde então trabalho sozinho. O facto de actuar sozinho permitiu-me descobrir muitos aspectos positivos. Quando trabalhamos sozinhos tomamos as nossas próprias decisões, tocamos aquilo que queremos e achamos que vai resultar no espectáculo, somos mais flexíveis, vamos ao encontro do público e com tudo isto vamos ganhando mais conhecimento e acabamos por saber aquilo que o povo realmente gosta ou não. Quando partilhamos o palco com outra pessoa, nem sempre há concordância, os gostos variam, nem sempre há empenho de alguma parte e num grupo/banda todos têm de remar para o mesmo sentido. Quando isso, de alguma forma não acontece é preferível cada um seguir seu próprio projecto.

Fizeste parte da Banda Geração 90. Fala-nos desta tua participação.

Foi-me feito o convite para participar como teclista e 2ª voz na banda Geração 90 em 2013/2014. A banda só tem um estilo: “Popular”. Quando me foi feito o convite a banda estava na sua fase inicial. Eu aceitei o convite pois éramos amigos e era um motivo para estarmos todos juntos. Tivemos ensaios no espaço de um ano e meio mas isso não importava porque nos divertíamos. Cheguei a actuar com a banda na festa da Trindade e no São João, ambas na Ribeira Quente com a minha empresa de som. Por divergências de opiniões/posições acabei por sair da banda e foi a partir daí que comecei a minha carreira a solo até hoje.

Participaste em movimentos culturais, tradicionais, foi influência do teu pai, também ele músico?

Sim, foi do meu pai que arrecadei este dom da música. Como ele desde sempre participou nesses movimentos culturais e tradicionais, como o “Grupo do Menino Jesus”, “Cantigas ao Desafio”, Grupo de Foliões” entre outros, isso teve uma influência directa em mim, pois despertou-me desde cedo o interesse nesses movimentos e em querer participar e dar o meu contributo para que a tradição se enraizasse e mantivesse até os dias de hoje. Dei também meu contributo no coro da igreja de São Paulo, tocando órgão entre os anos 2004/2011. O meu pai nunca se intitulou como músico. Dava uns “toques” no acordeão, animava as nossas rambóias nas festas de natal com suas cantigas e tocando acordeão. É um amante das tradições e vive muito as festas de Natal principalmente em família. Não é por ser meu pai, mas ele é hoje em dia um dos melhores cantadores de cantigas ao desafio da ilha de São Miguel.

Que outros projectos integraste?

Apesar da minha pouca idade e anos de carreira musical, integrei alguns projectos musicais como o “Duo David e Raquel”, “Duo David e Simone”, “Duo David e Emanuel”, sendo este último um projecto com mais relevo. Participei em algumas bandas por convite e/ou situações pontuais como os “Shootings Stars”, “Banda Oceanus”, “Banda Blackout” “Banda Café Central”, “Banda.com”.

Qual a importância das cantigas ao desafio na cultura dos Açores?

As Cantigas ao Desafio fazem parte do ADN da cultura dos Açores. É uma tradição de longa data que é partilhada essencialmente pela ilha de São Miguel e Terceira na sua maioria. Nomes antigos como Charrua, Turlu, António Tabico, Vasco Aguiar, José Fernandes, Aguiar, Carvalho, José Plácido, entre muitos outros, marcam a história desta arte, que não deve acabar nos Açores. Este género musical é a nossa identidade, enquanto açorianos. A sonoridade, melodia, harmonia são únicas. Como Lisboa tem o Fado que é património mundial e a voz de um povo, nos Açores temos as Cantigas ao Desafio que é a nossa identidade, os nossos costumes e tradição que devem ser preservados e transmitidos às gerações futuras, coisa que tem acontecido e já temos jovens talentos que estão se afirmando nesta arte. É uma mais-valia para manter-se a tradição e a voz dos ilhéus.

Porque razão um jovem de hoje se interessa pelos Foliões e qual a adesão das pessoas?

Nos dias de hoje um jovem adere e interessa-se pelos grupos de foliões porque tem gosto em ouvir, participar, cantar e vestir a indumentária própria dos foliões. Em muitos casos seguiram as pisadas dos seus familiares e dão continuidade à tradição. No meu caso, adquiri esse gosto através do meu pai e participo até hoje no grupo de foliões. Há uma forte adesão por parte das pessoas. As pessoas estão fortemente ligadas às tradições e costumes principalmente nas festas do Espírito Santo. As pessoas conhecem a melodia, conhecem o conceito, vivem aquele momento de entrega ao Divino Espírito Santo e aproveitam para derramar as lágrimas, as dores de uma vida, despem-se de preconceitos e abraçarem a bandeira como que a pedir um alento ao Divino Espírito Santo.

Tens falado da ilha das Flores com um carinho especial. Qual a razão?

Como costumo a dizer, a ilha das Flores é a minha segunda casa. Fui pela primeira vez à ilha das Flores em 2010, na altura com o Duo David e Romeu. Lembro-me que estava mau tempo e que no primeiro dia tivemos de actuar dentro da mordomia. Desde logo estabeleci uma ligação muito boa com os florentinos. Comecei a conhecer os seus gostos e costumes e identifiquei-me. É um povo simples e nada exigente. Eles gostam imenso de um bom baile, é um povo que participa muito nas festas religiosas. Ao contrário dos micaelenses, os florentinos não têm preconceitos, vergonha de dançar, de divertirem-se. É um povo que aproveita as oportunidades e vivem-nas ao máximo. Tanto os adultos como os jovens gostam de músicas populares, de Tangos e de valsas. Nas primeiras vezes que fui às Flores fui-me apercebendo disso e foram-me transmitindo os seus gostos. Fui utilizando esses conhecimentos a meu favor. Sempre que ia às Flores preparava um reportório específico para eles e dançavam do princípio ao fim. A última vez que fui às Flores na freguesia de Ponta Delgada, comecei a actuar às 22h15 e só terminei às 03h11, sensivelmente 5 horas de espectáculo. O carinho é recíproco, e o segredo é dar ao povo aquilo que ele quer.

És promotor de eventos. Por que razão os artistas locais são preteridos face aos do Continente?

É um tema em que as opiniões dividem-se, umas mais viáveis que outras. Como promotor de eventos eu lido com muitas pessoas que já têm uma ideia pré-definida de que os de fora é que são bons e os casa são amadores, o que não corresponde à verdade. Temos muitos e bons artistas locais que trabalham muito, que fazem grandes investimentos para poderem subir ao palco e quando o fazem, fazem-no com qualidade. Cada caso é um caso porque também há artistas ou “pseudo artistas” que estragam o bom nome e a imagem dos bons artistas locais e uma pessoa menos informada da comissão que não esteja a par do mundo do espectáculo e de entidades responsáveis, facilmente deixa-se levar pelas opiniões. As comissões quando se sentem confortáveis a nível monetário, por vezes gostam de subir a fasquia e por uma questão de estratégia e negócio, preferem trazer artistas continentais com relativa fama porque atrai mais pessoas para as suas festas. Por vezes resulta e há retorno, como também há vezes em que era preferível investir nos de casa porque até faziam melhor papel. Mas como diz o velho ditado “Santos da casa não fazem milagres”.

Tens algum projecto para o futuro?

Numa freguesia ou outra há sempre alguém que pergunta se tenho “cd” sendo que a última vez que perguntaram foi na ilha de Santa Maria. É uma ideia que tenho em mente para fazer no futuro. Pretendo dar continuidade e desenvolver cada vez mais a minha empresa de som e de eventos para um dia chegar aos grandes festivais locais e nacionais. Quanto ao projecto a solo não prevejo alterações mas estou sempre disposto a novas ideias, novos projectos com pessoas que queiram trabalhar e fazer um trabalho bem feito.

Por: António Pedro Costa

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